segunda-feira, 14 de agosto de 2017

A cabanagem no Amapá



Macapá e Mazagão (rebaixado a povoado em 1833 e nomeado de Regeneração) manteram-se fiéis a “legalidade” e não apoiaram o governo cabano. Ao assumir o poder os cabanos assassinaram o Presidente da província, Lobo de Sousa, em Belém. Os macapaenses souberam dos fatos através do ajudante (co-comandante) da Fortaleza de São José, Francisco Pereira de Brito, que fora em busca de recursos para o pagamento dos militares, pois estavam sem receber a cerca de 7 meses. Trouxe consigo uma nova moeda produzida pelo governo cabano para pagar os soldados. Em abril de 1835 a câmara de Macapá reuniu-se e decidiu por não aceitar a nova moeda e, portanto, a autoridade do governo. Para atualizar os pagamentos houve a colaboração dos moradores. Os administradores da vila elaboraram um plano para proteger Macapá que ficou sob a responsabilidade do capitão José Joaquim Romão, do juiz municipal Manuel Gonçalves de Azevedo, o capitão da guarda nacional Francisco Barreto e o promotor Estácio José Picanço. Ainda em abril a câmara aprovou o plano que entre outras medidas propunha: organização de uma cavalaria com 20 homens para proteger a vila, reparo no armamento da fortaleza e a utilização de uma embarcação para proteger pelo Amazonas.
Mas, a situação da Fortaleza era angustiante, pois havia poucos militares e por isso foram destacados guardas-nacionais para vigiar Macapá. Mazagão adotou posicionamento semelhante ao de Macapá e ficou contrário aos cabanos. A elite mazaganista resolveu destacar uma embarcação que patrulhava o rio Mutuacá. Este barco foi de grande valia quando os cabanos tentaram entrar em Mazagão, mas foram rechaçados.
Com o avanço dos cabanos na província a câmara de Macapá resolveu se preparar novamente e em setembro de 1835 reuniu-se e delegou ao comandante da fortaleza o major Francisco de Siqueira Monterroso e Melo da Silveira Vasconcelos a responsabilidade da defesa. Com a ajuda dos macapaenses de posses ele colocou para patrulhar a região vários barcos. A proteção estava por terra e pelo mar.
No mês de novembro houve embate com os cabanos que tiveram que se refugiar pelo interior de Macapá. Uma parte alojou-se na ilha de Santana (próximo de Mazagão), no furo beija-flor e na ilha Vieirinha. Reiniciado os combates as forças macapaense e mazaganista conseguiram “vencê-los”. Contudo, os cabanos apareciam constantemente por meio de bandos. Segundo Arthur Cezar Ferreira Reis Macapá era um “baluarte da legalidade”, pois oferecia homens e materiais para Cametá, Portel, Afuá, Curuçá na luta contra os cabanos.
Segundo Estácio Vidal Picanço os franceses vindos de Caiena realizavam comércio com os índios desde o século XVII na região. Eles também auxiliaram alguns grupos de cabanos com armas, mas essa ajuda foi limitada.

Referências

PICANÇO, Estácio Vidal. Informações sobre a história do Amapá (1500-1900). Macapá: Imprensa oficial, 1981.
REIS, Arthur Cezar Ferreira. Território do Amapá: perfil histórico. Rio de Janeiro: Imprensa nacional, 1949.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

A história de vida de Inácio de Loyola

Inácio de Loyla





Iñigo Lopez de Oñaz y Loyola nasceu e viveu em contexto marcado por transformações políticas, econômicas, religiosas e mentais. Veio ao mundo em 1491, momento em que “Erasmo tem vinte e cinco anos, Maquiavel vinte e dois, Copérnico dezoito, Miguel Ângelo dezesseis, Thomas More onze – e Lutero exatamente a idade dita ‘da razão’” (LACOUTURE, 1994, p.10). Também é nesse período que Colombo abre as possibilidades da chamada América para os soberanos espanhóis. Eram tempos impactantes por suas descobertas e possibilidades em várias áreas do conhecimento e da vida. Para o francês Jean Lacouture (1994) o que marcou esse momento foi a repulsa às tradições medievais e a devotada busca da modernidade. Assim, ele define essa repulsa como:

Aquilo que o prende à Idade Média, fideísmo amedrontado, cavalaria rixosa, clanismo feudal, cederá pouco a pouco sob o impulso de forças internas e externas: a busca do conhecimento, a consciência da liberdade, a avidez da conquista do mundo – e finalmente, mas não sem reservas, refluxos e recuos, um humanismo planetário (LACOUTURE, 1994, p.11).


De maneira significativa a Espanha sob o governo, dos reis “católicos” Ferdinando (Frenando) e Isabel, notadamente, Castela vive um tempo de estabilidade proporcionado pelo “ouro das Índias” o que a tornará uma força na Europa. Contudo, em Navarra e Guipúzcoa que estão mais estritamente associadas com a história do futuro fundador da Companhia de Jesus ocorrem conflitos entre os clãs (LACOUTURE, 1994).
Nascido em Azpeitia cuja família estava atrelada ao poder e às benesses disso.  Ele foi o décimo terceiro filho de Beltran e Marina de Loyola e “foi batizado com o nome basco de Eneko, traduzido por Iñigo em castelhano” (LACOUTURE, 1994, p. 16). Fato interessante foi que somente em Paris e ao terminar o curso de artes que ele escolheu o nome de Inácio (LACOUTURE, 1994). Sabe-se que aos dezesseis anos de idade tornou-se uma espécie de secretário em Arévola e foi justamente nessa localidade que ele desenvolveu a habilidade da escrita. Habilidade essa que influenciou toda sua vida, bem como, a da ordem fundada por ele. Segundo Jean Lacouture (1994) em sua juventude desfrutava de uma vida boêmia regada à diversas confusões tanto que em 1515 o futuro fundador foi detido por algum crime. Muito provavelmente por sua alta linhagem escapou sem qualquer punição.
Devido a mudanças políticas com a morte do rei Ferdinando (Fernando) o futuro jesuíta é obrigado a partir para Pamplona, metrópole de Navarra. Aqui se transformou em escudeiro, pois era fidalgo e de uma família de soldados seu destino naquela sociedade guerreira parecia está traçado. Nesta região participou da resistência contra o ataque dos franceses em que acaba ferido nas duas pernas. Segundo John O’Malley (2004) uma bala de canhão explodiu e o deixou gravemente machucado nas suas pernas. Foi operado, contudo estava a beira da morte e implorou a intercessão de São Pedro e melhorou o que mais tarde veio a atribuir a intervenção desse santo no seu repentino restabelecimento. Entretanto, ficou com a perna direita vários centímetros mais curta (LACOUTURE, 1994).
Enquanto recuperava-se no Castelo de Loyola, sem ter em mãos os contos cavalheirescos que tanto adorava, voltou-se à leitura da vida de Jesus e dos santos. Leu a Vida de Cristo de Ludolfo da Saxônia e sobre os santos deleitou-se da Fábula Dourada, escrita por Jacopo da Voragine (O’MALLEY, 2004; WRIGHT, 2006). Diante disso ele teve uma “visitação espiritual” e resolveu viajar à Jerusalém.  Para Jonathan Wright (2006) essa literatura religiosa o fez identificar que havia algo invejoso na história dos santos, “uma espécie de cavalaria espiritual, e decidiu seguir o exemplo” (WRIGHT, 2006, p. 25). A partir daí sua vida tomará novos rumos, porém suas pernas ainda estavam em processo de cicatrização e isso o impossibilita. Impedido da viagem passa as horas colocando sua habilidade em ação, mas qual habilidade? A de escrever sobre Jesus e Maria (LACOUTURE, 1994). Não é fácil contar a história de conversão de uma pessoa, narrá-la com suposta objetividade é uma pretensão. O fato é que mesmo ainda em recuperação deseja renunciar ao “mundo” e dedicar-se à vida religiosa. Nas palavras de Jean Lacouture (1994, p. 25) “decidiu trocar uma cavalaria por outra, o amor cortês pelo amor de Deus e os copiosos benefícios do feudalismo pelo despojamento nos caminhos de Jerusalém”. Uma mudança de vida profunda que determinará, inclusive, os rumos da história. Torna-se um peregrino e quer dedicar-se inteiramente às coisas de Deus. Conversa com um monge e lhe confessa as suas intenções de despojamento total, abstinência, castidade e peregrinação à Terra Santa. E em 1522 diante da imagem de Maria faz seus votos particulares o que simboliza eticamente a mudança para um homem novo.
Ficou cerca de dez meses em Manresa e foi nessa cidade que obteve várias experiências espirituais.  Aqui vivera como mendigo pedindo esmolas todos os dias. Não comia carne e tampouco bebia vinho. Era uma vida de total despojamento em que vivia numa gruta. Os cabelos e as unhas cresceram de forma descomunal (WRIGHT, 2006). Tinha visões espirituais seja com Deus e seus auxiliares ou com o demônio. Seria um louco? Devido suas extravagâncias muitos o acusavam.  Vivia tendo êxtases espirituais, moções interiores, perturbações (LACOUTURE, 1994). John O’Malley (2004) afirma que ele desenvolveu atitudes austeras como, por exemplo, abstinências e autoflagelações. Por incrível que pareça é neste contexto que ele escreve o conhecido Exercícios Espirituais. Para Loyola essa obra foi inspirada por Deus para o crescimento das “almas”. O diferencial desse escrito é que ele transparece as experiências vividas pelo próprio autor. “O retiro em ação com a duração de quatro semanas, que ele propõe ao seu próximo, foi vivido por ele ao longo de onze meses, os primeiros numa longa e dolorosa alucinação” (LACOUTURE, 1994, p. 32). Os Exercícios Espirituais atualmente são realizados por milhares de pessoas em todo o planeta. Muito se especulou sobre as possíveis influências sofridas por Loyola ao escrevê-lo. Para Jean Lacoutre (1994) duas são evidentes: a Imitação de Cristo atribuída à Thomas Kempis a qual tornou-se devoto a vida toda e o Exercitario de Garcia Cisneros. Para John O’ Malley (2004) esse manual foi usado por ele como instrumento motivador dos seus primeiros discípulos e o indicou como “experiência a ser vivida para todos os que entrassem mais tarde na Companhia” (O’MALLEY, 2004, p.20). É este documento que mostra aos jesuítas quem eles deveriam ser (O’MALLEY, 2004). Esse escrito de Loyola obteve a aprovação papal em 1548.
O “mendigo” de Deus precisa sair de Manresa com a intenção de chegar à sua meta, isto é, a cidade de Jerusalém. Ficou curado devido a ajuda de diversas pessoas e precisa ir à Barcelona e depois partir à Itália com o intuito de pedir autorização papal para chegar ao seu destino final (LACOUTURE, 1994). De Barcelona enfrenta algumas aventuras até chegar a Roma, de lá viajou a pé de aldeia em aldeia até chegar em Veneza onde adoece e é tratado. O médico lhe permite a viagem e parte de navio até a ilha de Chipre de onde sai e chega em Jerusalém. Pensava ele ficar por um longo tempo nessa cidade para visitar os lugares considerados santos pelos cristãos. Encontrou os padres da ordem dos capuchinhos que devido a instabilidade da região o obrigaram a abandonar a Terra Santa. Permaneceu três semanas em Jerusalém no mês de setembro de 1523. Ao embarcar na viagem de volta é preso em Lombardia pelos espanhóis como um suposto espião francês, mas acaba sendo solto. De volta à Veneza sente uma inclinação para os estudos (LACOUTRE, 1994). Eis um ponto importante que marcará indelevelmente os futuros jesuítas. A busca pelo saber para o bem das almas. Assim resume Jean Lacouture (1994, 37) a vida de Iñigo “cavaleiro se torna ermitão. O ermitão, peregrino. O peregrino não terá descanso enquanto não se tornar doutor. E o doutor enviará seus discípulos para informar o mundo e se informar sobre o mundo”.
Percebe-se que a partir da sua conversão à vida religiosa e sua opção ao despojamento total da sua condição social Loyola enfrenta diversas dificuldades, mas também experiências interiores que acredita serem inspirações divinas. Jean Lacouture (1994, p. 37) descreve a sua vida:

Rompeu com a “glória vã” das armas, da galanteria e da corte. Flagelou-se, enclausurou-se numa gruta como um animal selvagem, cavalgou, percorreu estradas coxeando, navegou, tremeu nas mãos dos infiéis, mendigou por todos os caminhos, tiritou sob os pórticos e as muralhas das cidades, escapou fazendo-se passar por um idiota nas garras dos soldados. A esta altura, quaisquer que sejam as provações às quais submeterá o corpo, e por mais intensas que possam ser as “moções” de sua alma, dominadoras as exigências de sua fé e imperiosos os impulsos de sua caridade, o vagabundo do calção bufante, que a Terra Santa não quis, cuidará de alimentar o intelecto.

Agora sua meta será buscar formação intelectual. Parece ser uma virada radical, ou seja, aquele que vivia de forma literal a sua fé enveredar-se-á para os caminhos dos estudos. Decisão importante que determinará o estilo da futura Sociedade de Jesus fundada por Inácio de Loyola. Ele buscará Barcelona por percebê-la como centro das ciências e artes. Contudo, até 1533 esta cidade não teve universidade, mas somente escolas. Iñigo enganou-se, mas buscou um mestre que fornecesse conhecimento em latim e gramática (LACOUTURE, 1994). Conseguiu o mestre chamado Jeronimo Ardevol no qual Loyola tornou-se seu aluno durante dois anos. Seu mestre o julgou apto a prosseguir seus estudos na universidade de Alcalá de Henares. Em 1527 chega a essa cidade marcada por uma efervescência religiosa carismática, pelo humanismo e pela tentativa de controle por parte da Igreja. Nesta cidade o agora peregrino e estudante continuará a pedir esmolas e pregar pelas ruas, aqui já irá constituir seguidores e atrair numerosas pessoas pela sua pregação.
Iñigo foi investigado pela inquisição espanhola, pois se desconfiava que ele fosse um alumbrado (iluminado). Para Jean Lacouture (1994) o movimento dos alumbrados ou iluminados surge no meio popular devido a falta de resposta para suprir a expectativa da fé pela instituição religiosa, bem como, o mau comportamento do clero. Era um movimento carismático que valorizava a experiência pessoal e que muitas vezes negava a eficácia dos sacramentos oferecidos pela instituição católica. Caracterizava-se por uma espiritualidade individualista e espontânea. Desconfiava-se que esse movimento havia sido impregnado pelo calvinismo e que, portanto, poderia ser uma heresia. No inquérito, muitos familiares e amigas de Iñigo foram ouvidos e a conclusão que se chegou foi que ele não era herege. O peregrino entra em Salamanca onde tem a passagem marcada por humilhações e dissabores. Também nessa cidade os padres dominicanos o prenderam e o interrogam sobre a sua pregação, que estudos ele possuía, se lia Erasmo. Após vinte e dois dias detido é solto e autorizado a ensinar o catecismo, mas é orientado a estudar para aprofundar a doutrina (LACOUTURE, 1994). Ele percebeu ainda mais a necessidade do estudo e por isso resolveu ir à Paris buscar conhecimento. Mas, por que Paris? No século XVI a universidade dessa cidade possuía a melhor faculdade de Teologia e em 1528 ele parte à cidade luz.
Foi justamente essa necessidade de estudos literários e científicos que os primeiros membros da Companhia de Jesus foram buscar numa Paris marcada pelo humanismo e o renascimento. Essa cidade era a capital intelectual do Ocidente. Foi nessa cidade tão cara aos futuros jesuítas que Iñigo atraiu seus seis primeiros discípulos aplicando-os os Exercícios Espirituais. Eram todos estudantes de Teologia da universidade de Paris. Para Jean Lacouture (1994) os seis primeiros homens que se uniram ao depois chamado Inácio de Loyola e professaram os votos em 15 de agosto de 1534, numa igreja junto ao monte Montmarte, eram o que se pode chamar de “intelectuais” formados nesse caldeirão humanista. Muitos autores defendem que é nesse acontecimento em que os primeiro grupo professou seus votos que teve origem a Companhia de Jesus. Contudo, o reconhecimento oficial só se daria seis anos mais tarde, “já que ainda não havia um desejo explícito de criar uma nova ordem religiosa, mas este pode ser considerado, sem dúvida, um momento inaugural” (WRIGHT, 2006, p. 30).
Apesar dos primeiros discípulos de Loyola estudarem num ambiente marcado pelo humanismo e renascimento parisiense, afirmar que os jesuítas surgiram como um ramo do humanismo não condiz com a realidade. “Nem poderíamos atribuir a iniciativa de Loyola e de seus companheiros à influência de Erasmo, embora os inquisidores de Alcalá e de Salamanca quisessem buscar obstinadamente nos passos do vagabundo Iñigo a inspiração do mestre de Rotterdam (LACOUTURE, 1994, p.51). Essa questão da influência do humanismo na Companhia, sobretudo, com Erasmo de Rotterdam gera um grande debate, contudo, vários autores não reconhecem grande influência pelo menos na formação da ordem. Corrobora com essa assertiva as vezes que Loyola foi inquirido pela inquisição, principalmente, a espanhola na busca de provas dessa influência, mas nada foi provado e ele foi dispensado. Contudo, esta questão permanece latente. Para John O’Malley (2004) o efeito do humanismo foi evidente na Companhia somente após a sua fundação. Segundo ele, a despeito dos primeiros jesuítas estarem ligado à escolástica medieval, “todos tinham aprendido a falar e a escrever em latim no estilo humanista e não ficaram imunes ao criticismo humanista à teologia escolástica e a seus praticantes” (O’MALLEY, 2004, p. 34-5).
Segundo Jean Lacouture (1994) Iñigo de Loyola possuía reservas a Erasmo, principalmente, pelo seu discurso crítico em relação à Igreja. Apesar do contexto marcado pelas reformas religiosas e a contrarreforma católica Loyola mantem sua posição de fidelidade e obediência à doutrina católica. Em 1534 ele recebe o diploma de mestre pela faculdade de artes de Paris e é a primeira vez que é chamado de Inácio. Não se sabe se ele foi consultado ou se ele optou pela mudança para homenagear santo Inácio de Antioquia (LACOUTURE, 1994). Já John O’Malley (2004, 53) defende que a mudança do nome deu-se quando em Paris matriculou-se no colégio de Santa Bárbara “e começou a se referir a si mesmo indiferentemente como Inácio ou Inigo, porque erroneamente pensou que o primeiro nome era apenas uma variação do último”. Seja qual for a causa ele ficou conhecido com o nome de Inácio e a partir de agora será utilizado neste trabalho esse nome.
Outro ponto controvertido é a afirmação de que Inácio de Loyola e seus nove companheiros fundaram a Companhia de Jesus como forma de reação ao protestantismo que avançava na Europa. Jean Lacouture (1994, p. 94) adverte que “não é sensato considerar a contra-reforma seu objetivo maior (pelo menos até o concílio de Trento, dez anos mais tarde)”.  E assim assevera:

Um dos textos originais dos padres fundadores assinala, é verdade, que eles se propunham não apenas evangelizar os turcos, mas também trazer os luteranos de volta à ortodoxia. Mas não está aí sua razão de ser ou de agir: seu objetivo não é originalmente “polêmico”, nem sua conduta inspirada por uma “reação”, e tampouco na sua preocupação “centrada na contra-reforma”, afirma um dos melhores historiadores das origens da Companhia, Pedro de Leturia (LACOUTURE, 1994, p. 95).
               
Corrobora com esse argumento o autor norte-americano, John O’Malley (2004, p. 36) ao afirmar que:

Em Paris, os companheiros testemunharam as incursões do “luteranismo” dentro da capital francesa, mas não utilizaram nada do que entendiam serem os principais pontos do novo movimento.  Embora conscientes como estavam da Reforma, esta não exerceu nenhuma influência palpável sobre o futuro que então delinearam para si mesmos e assim fizeram poucas referências a isso quando descreveram seus anos em Paris. Quando, em 1534, assumiram o voto de passar algum tempo do ministério num lugar distante, voltaram seus olhares a Jerusalém e não a Winttenberg.

A partir das citações percebe-se que apesar de Inácio e seus companheiros estarem no contexto das reformas religiosas essas não determinaram o surgimento dos jesuítas. Outro autor que refuta essa tese é Jonathan Wright (2006). Ele defende que inicialmente Inácio e seus companheiros não estavam preocupados em ser o “exército” do papa e comandar a reação contra as reformas religiosas. Assim:

Não viam a desordem das duas décadas anteriores em termos estritamente doutrinários, mas sim como sintoma de mal-estar e crise moral generalizados. Visavam a uma renovação espiritual, uma purificação das almas, queriam corrigir a ignorância da doutrina, um expurgo dos pecados e da superstição (WRIGHT, 2006, p. 32).

 Isso não significa que mais tarde eles não viessem a travar disputas teológicas com os protestantes e serem utilizados pela Igreja nas diversas partes do mundo para aumentar o seu rebanho. Nos seus primeiros anos de existência os jesuítas atuaram, principalmente, na Itália e na Espanha regiões onde o protestantismo ainda não era tão presente. No decorrer dos anos os jesuítas começaram a se envolver em conflitos com luteranos e calvinistas e passaram a ser a principal ordem que atuou para novas conversões ao catolicismo em várias regiões do mundo.
Recorda-se que o sonho inicial de Loyola era ir à Terra Santa, porém estava impedido. E agora? Para onde ir? Ele e seus companheiros escolheram Roma. Lá onde estava o Sumo Pontífice. Para Jean Lacouture (1994, p. 97) “ordenado sacerdote em Veneza em junho de 1537, assim como a maioria de seus companheiros, Loyola resignou-se a desviar seu curso dirigindo para Roma o ímpeto de sua equipe”. Daí enfrentou um caminho até o dia 27 de setembro de 1540 quando o papa Paulo III assina a bula Regimini Militantis Ecclesiae que oficializou canonicamente a Companhia ou Sociedade de Jesus. Portanto, a nova ordem foi fundada para propagação da fé católica, por conseguinte, para a maior glória de Deus. Ad majorem Dei gloriam (O’MALLEY, 2004). Inácio de Loyola morre em 31 de Julho de 1556. Assim, a Sociedade de Jesus seguirá novos rumos, mas sempre voltando seus olhos para a vida e orientações do seu fundador.
Cabe um questionamento: por que o nome Companhia de Jesus? John O’Malley (2004) assevera que foi uma decisão conjunta entre os primeiros membros atraídos por Loyola que decidiram se alguém os perguntassem quem eles eram a resposta seria “Companhia de Jesus”, pois não tinham outro superior a não ser Jesus. Termo muito em voga na Itália para designar apenas uma associação. Outra informação que chama a atenção é a questão do nome dos membros da nova ordem. Foram chamados de diversos nomes, por exemplo, padres reformadores, padres romanos santos e apóstolos. Segundo Florence Artigalas (2013) o termo “jesuíta” não foi utilizado pelo fundador e não consta nos escritos deixados por ele. Inácio chamava de “os companheiros” os membros da ordem. John O’Malley (2004) informa que em algumas localidades da Espanha eram designados de “inacianos”. Este termo possuía a conotação pejorativa, porém o termo “jesuíta” prevaleceu. No início do século XVI a palavra “jesuíta” também era considerada pejorativa e neste caso significava na Teologia moral “hipócrita” ou “fariseu” (ARTIGALAS, 2013). Contudo, a partir da segunda metade do século XVI o termo foi perdendo seu sentido negativo. A primeira vez que um discípulo de Loyola foi chamado de “jesuíta” ocorreu na cidade de Colônia (Alemanha).
Outra questão é sobre a situação socioeconômica dos primeiros jesuítas. Será que já compunham uma espécie de elite social e intelectual? Possuíam muitas posses? Ao analisar o questionário de Nadal, um dos primeiros companheiros de Inácio, John O’Malley (2004) sustenta que os pais de muitos padres e estudantes entre 1548 e 1568 eram comerciantes, advogados, tabeliães. Esses eram reconhecidos e estimados em suas respectivas profissões. Poucos vieram da nobreza, de fato, eram uma minoria comparados com aqueles que provinham do colégio de Bibona na Sicília. Portanto, “os jesuítas vinham de famílias urbanas e de categorias sociais que estimulavam (e precisavam de) habilidades literárias e dotes intelectuais” (O’MALLEY, 2004, p.98).
Apesar da maioria dos primeiros inacianos não ter atuado fora da Europa, os que saíram serviram de exemplo para as gerações futuras. Francisco Xavier chegou à Índia em 1542 e para ajudar na evangelização traduziu algumas orações para a língua local. Já em 1549 chega ao Japão e admira-se com a cultura japonesa. Segundo John O’Malley (2004, p. 124):

Por dois anos e meio permaneceu no Japão, onde recebeu a permissão de fazer prosélitos, impressionando as autoridades japonesas com presentes como relógios, óculos, caixas de música e vinho. Ajudou a criar contatos entre a classe erudita do Japão e as grandes universidades na Europa, especialmente sua universidade, Paris.

Francisco Xavier conquistou algumas centenas de pessoas para o cristianismo no Japão. Decidiu partir para China, contudo, não conseguiu alcançar a sua meta e morreu na ilha de Sancian, em 3 de dezembro de 1552 (O’MALLEY, 2004). Os jesuítas tomam a experiência de Francisco Xavier como protótipo de missionariedade e fundaram ao longo da história várias edificações que homenageavam este missionário.  A Igreja católica em reconhecimento ao seu trabalho apostólico o tornou patrono das missões.
Alguns meses antes dos jesuítas chegarem ao Japão, seis inacianos chegaram à América portuguesa (Brasil) em 1549. Vieram sob a liderança do padre Manuel da Nóbrega que em duas semanas nessas terras já criara aulas de catecismo para filhos dos colonos e indígenas. Em 1553 chegou o basco José de Anchieta que juntamente com Nóbrega tornou-se o centro catalizador da missão. Assim, a missão no Brasil, principalmente, com os ameríndios se desenvolverá (O’MALLEY, 2004).

 Referências
ARTIGALAS, Florence. Les jésuites au Nouveau Monde: les débuts de l’évangelisation de la Nouvelle-France et de la France équinoxiale, XVIIᵉ-XVIIIᵉ siècle. Matoury: Ibis Rouge Éditions, 2013.
LACOUTURE, Jean. Os Jesuítas: os conquistadores. Tradução de Ana Maria Capovilla. Porto Alegre: L&PM, 1994.
O’MALLEY, John W. Os primeiros jesuítas. Tradução de Domingos Armando Donida. São Leopoldo, RS: Editora UNISINOS; Bauru, SP: EDUSC, 2004.
WRIGHT, Jonathan. Os jesuítas: missões, mitos e histórias. Tradução de Andréa Rocha. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2006.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Atividade com usos de documentos históricos sobre a produção açucareira na América portuguesa



 A importância e objetivos
A atividade visa oportunizar os estudantes a desenvolver a capacidade de análise e interpretação de documentos históricos.  Esse tipo de trabalho não tem o objetivo de torná-los pequenos historiadores, mas através dele promover a produção do saber histórico escolar tornando os educandos sujeitos ativos do conhecimento. É interessante as hipóteses que aparecem nos escritos deles. Dessa forma, eles percebem que a História é construída a partir de fontes.

Sugestões
 Sugiro que essa atividade seja proposta após a discussão com eles sobre a produção da economia açucareira. Na aula expositiva e dialogada pode-se enfatizar a mão de obra empregada, bem como, as atividades dos engenhos. Essa proposta foi utilizada com as turmas do 2º ano do Ensino Médio, mas pode ser adaptada para os 7º anos do Ensino Fundamental. Cabe ao professor aprimorar e adaptar de acordo com as turmas. Tive que fazer a atividade simples, pois os estudantes não estão habituados ao trabalho com fontes históricos. Os resultados e a satisfação deles confirmam a necessidade dos usos de documentos em sala de aula nas aulas de História.

 Atividade com fontes históricas do período colonial


O paisagista holandês Frans Post foi o primeiro artista a registrar imagens do Brasil colonial. Suas pinturas mostram paisagens, engenhos e a escravidão do Nordeste açucareiro do século XVII. Frans Post (1612-1680) veio para o “Brasil”, em 1637, junto com a comitiva do governador holandês, de Maurício de Nassau, à época da ocupação holandesa no Nordeste (1630-1654). Durante os sete anos que permaneceu no “Brasil”, Frans Post pintou paisagens, vistas de portos, fortificações e engenhos tendo o cuidado em reproduzir detalhes da topografia, fauna e flora. De volta à Holanda, continuou pintando cenas “brasileiras”, baseando-se em esboços e desenhos. Ilustrou a obra de Gaspar Barlaeus, “História dos feitos recentemente praticados durante oito anos no Brasil” (1647), um relato do governo de Nassau na história do “Brasil”. Observe a imagem que ele pintou para o mapa de Gaspar Barlaeus.


Engenho de Itamaracá, de Frans Post para o mapa de Gaspar Barlaeus, 1647

Fonte:



O textos que se seguem foram retirados da obra do jesuíta italiano André João Antonil: Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas. Essa obra foi publicada em Lisboa no ano de 1711 e trata dos aspectos econômicos e sociais da colônia. Devido os detalhes que foram divulgados no livro a coroa portuguesa resolveu tirá-lo de circulação. Ele só foi reeditado em 1837 na cidade do Rio de Janeiro. É uma obra fundamental para compreender o período colonial. O jesuíta chegou na Bahia em 1681 e faleceu na mesma capitania em 1716. Leia alguns trechos da obra:

“Servem ao senhor do engenho, em vários ofícios, além dos escravos de enxada e foice que têm nas suas fazendas e na moenda, e fora os mulatos e mulatas, negros e negras de casa, ou ocupados em outras partes, barqueiros, canoeiros, calafates, carapinas, carreiros, oleiros, vaqueiros, pastores e pescadores. Tem mais, cada senhor destes, necessariamente, um mestre de açúcar, um banqueiro e um contrabanqueiro, um purgador, um caixeiro no engenho e outro na cidade [...]” (ANTONIL, A. Cultura e opulência no Brasil. 2011, p. 83-84).

O feitor da moenda chama ao seu tempo as escravas, recebe a cana e a manda vir e meter bem nos eixos e tirar o bagaço, atentando que as negras não durmam, pelo perigo que há de ficarem presas e moídas, se lhes não cortarem as mãos, quando isto suceda, e mandando juntamente divertir a água da roda que pare” (p. 98-99).

“O lugar de maior perigo que há no engenho é o da moenda, porque, se por desgraça a escrava que mete a cana entre os eixos, ou por força do sono, ou por cansada, ou por qualquer outro descuido, meteu desatentamente a mão mais adiante do que devia, arrisca-se a passar moída entre os eixos, se lhe não cortarem logo a mão ou o braço apanhado, tendo para isso junto da moenda um facão [...]” (p. 138).

“Os escravos são as mãos e os pés do senhor de engenho, porque sem eles no Brasil não é possível fazer, conservar e aumentar fazenda, nem ter engenho corrente” (p. 106).

A partir da leitura da imagem do Frans Post e dos escritos de Antonil responda as seguintes questões:
 a) Com relação à casa de moenda em que pessoas colocam a cana qual a diferença principal no que é sugerido pela imagem e o que o texto escrito apresenta?
 b) A imagem sugere um ambiente harmonioso e equilibrado. Isso corresponde à realidade histórica? 
  c)  A partir da leitura do texto do jesuíta Antonil quais os outros tipos de trabalho eram exercidos nos engenhos?
 d) Aconteciam muitos acidentes nos engenhos? Quais as causas? 
  e)  O que seriam os edifícios ao fundo no canto direito da imagem, ou seja, o esquerdo do observador? 
  f)  Ao observar a imagem a sua hipótese é de que o engenho é de um senhor rico ou de um não tão rico? Justifique a sua resposta. 
 g) Explique a frase: “Os escravos são as mãos e os pés do senhor de engenho, porque sem eles no Brasil não é possível fazer, conservar e aumentar fazenda, nem ter engenho corrente”.
         h)   Quais as diferenças entre os trabalhadores dos engenhos e os atuais?

Professor Bruno Rafael Machado Nascimento